Ah... Como ele queria parar de pensar nela!
Mas ele também queria saber o porquê de seimportar. Tudo bem, ela sabia daquilo.
Mas, e daí?
Não sabia por que fugia dela, achava que eraporque tinha medo de falar algo errado. Mas não conseguia parar de imaginar milhões de coisas que não aconteciam, e por sua culpa.
Descobriu que fugia por vergonha. Ou idiotice, se preferir. Morria de medo de ter algo a mais do que já tinham, mesmo querendo mais do que tudo que ela fosse só dele, que passassem o dia juntos e, mesmo odiando abraços, queria beijá-la e andar com a sua mão entrelaçada à dela.
Morria de medo de que ela soubesse que ele gostava dela, e tudo tinha ido por água abaixo por causa de uma coisa boba que escrevera no seu livro quando estava distraído.
Tudo bem, ele não conseguia parar de olhar para ela, e provavelmente ela já tinha percebido isso, mas a culpa era dela. Quem mandou ser tão bonita?
Na verdade, ele nem sabia o porquê de estar apaixonado por ela. Quer dizer, ela era bonita, mas além dela, havia outrasgarotas bonitas no colégio, até mais bonitas do que ela.
Então, por quê?
Quer dizer, ela falava demais. E chegava aquase gritar. Não era “para lá de engraçada” ou algo assim, e era um pouco fria. Amarga talvez. Mas conseguia ser meiga quando queria e tinha um sorriso que o encantava.
E, Deus, ela era cheia de paranoias! Tinha um monte de manias, nunca deixava bem claro se gostava dele ou se sabia que ele gostava dela e era mandona. E como! Mas não desistia nunca, era inteligente e corajosa, além de tudo.
E no físico... Bem, tinha o cabelo, que ela vivia dizendo que era horroroso, mas ele achava bem bonito e também achava interessante ela não alisá-lo como a maioria das outras garotas. Era magra (não demais), mas vivia reclamando que era gorda e ele achava engraçado, mas não ria, claro. Ela bem pensaria que estava caçoando dela, e ou riria junto ou daria uma bela lição nele, ou pior, ficaria em silêncio. Isso era o que mostrava a ele que ela estava com raiva dele: quando era indiferente e falava com ele sem olhá-lo nos olhos. Era uma grande qualidade dela, olhar nos olhos da pessoa comquem conversa. Não sabia por que gostava disso nela, mas entendia o porquê queela fazia isso: ela gostava de ser ouvida, portanto mostrava a quem estivesse conversando que também sabia ouvir.
Além de ser forte por fora e frágil por dentro, ou vice-versa. Talvez os dois ao mesmo tempo. E era sincera, extremamente sincera. Falava o que queria e dane-se o que você pensava dela. Era ela mesma, mas era atingida quando alguém de seu meio de amizade a atacava com seus defeitos (nem sempre eram verdade, pelo menos para ele). Abalava-se, mas não se importava de passar o intervalo sozinha se fosse preciso.
Era também apaixonada por livros e gostava de escrever, mas odiava limitações quanto ao tema. Era realista e moderna, mas mesmo assim romântica. E era imprevisível, completamente imprevisível. Enquanto você pensava que ela não iria falar com você, ela fazia o contrário, e vice-versa.Enquanto você pensava que ela simplesmente iria sair dali correndo sem olhar para trás, ela simplesmente ficava um pouco mais e se despedia com um abraço e ás vezes com um beijo no rosto.
E ela adorava bater nele. A maioria das vezes era de brincadeira, mas algumas vezes o espancava só com o olhar. Sentia diminuir toda vez que ela virava para olhar para ele e parecia dizer: “você é um grande idiota”. Também amava música. Ouvia no seu fone sempre que podia e isso o irritava um pouco, parecia que ela não estava nem aí para o que estavam dizendo a ela, mas aí lá vinha ela com o seu olhar centrado na pessoa com que dialogava.
Começou a achar que a música era para ela como a trilha sonora de um filme, e talvez fosse só isso que queria: se sentir como em um filme.
Amava animais e era ecologicamente correta. Jogava sempre lixo no lixo, e era paciente e generosa. Claro, ela só era paciente com quem gostava, mas era generosa com todos. Até mesmo com quem não gostava muito. Também costumava dizer que odiava muitas coisas, mais odiar mesmo odiava poucas.
Gostava de dançar, diferentemente dele. Dizia que a dança estava no seu sangue. Também não se interessava muito por videogames ou qualquer tipo de jogo. Já ele era viciado neles, principalmente em Guitar Hero, um jogo que, para ela, só era viciado quem não tinha vida própria.
Dava-se muito bem com os adultos, principalmente com os professores e tinha presença. Sempre tentava manter-se ereta durante as aulas e sempre perguntava e comentava bastante. Era focada e não costumava perder a postura, a não ser quando ficava triste. E o interessante que só a via triste quando não estava falando com ele: no mesmo dia que a via triste, quando eles conversavam (depois), ela sorria e se mostrava feliz, e ele percebia que não estava fingindo. E se sentia feliz em fazê-la feliz. Mas ás vezes ela exagerava e falava perto demais do seu rosto e aumentava um pouco o tom de voz, o que a fazia parecer uma barraqueira. Mas só fazia isso quando queria que entendessem bem o que dizia.
Claro, a voz dela era meio irritante, como a de uma criança, mas não a ponto de ser impossível ouvi-la até a morte. Ah, e ela odiava crianças pequenas, como de três a quatro anos. A causa era relativa ao barulho, ou a “mimadez”, ou qualquer coisa assim. Mas mesmo assim era supergentil com crianças e ele achava isso contraditório, mas não comentava nada.
Era também estritamente cuidadosa, como uma mãe ou uma irmã mais velha. Ajudava-te nas horas difíceis e guiava-te ao caminho certo quando era preciso.
Odiava a palavra “escroto”, ou “tosco” e até mesmo as palavras “desgraça” e “privada”. Adorava conhecer novas palavras edizia que “sempre quis ter uma loja de bugigangas”. Sua bebida preferida era água e sua cor era azul-turquesa.
Adorava usar pulseiras e anéis, não usava brincos e por um bom tempo nunca aparecia sem uma tiara na cabeça. Até que começou a só usar tranças de lado. Costumava usar maquiagem, mas ás vezes não, o que ele preferia muito mais. Não que ficasse feia maquiada, mas sem ele podia perceber como era bonita naturalmente, sem brilhos falsos. Uma vez ela até o perguntara se a preferia com ou sem maquiagem, e ele, burro, respondeu algo como “tanto faz” ou “não faz diferença”. Martirizava-se por isso, principalmente pelo olhar dela depois que ele dissera tal besteira.
Claro, ela não era perfeita. Mas percebeu que não tinha por que não gostar dela. Ela era bonita, inteligente, observadora e caridosa. Uma pessoa digna de ser apresentada aos pais, aos avós, à família toda. E com certeza era uma pessoa que se podiam passar meses, anos e até a vida toda que você nunca ia se cansar de estar ali ao lado dela. Era contagiante e (decidiu) engraçada (pelo menos na sua concepção).
Sim, ele estava apaixonado por ela.
E ele sabia o porquê.