sexta-feira, 29 de março de 2013

(meu)Lembranças chuvosas


      É uma tarde de primavera. Mas chove. Uma chuva torrencial, plena das mais simples dores, dos mais simples alento. Uma garoa fina, pesada, pancadaria leve feita do mais puro aço, dos mais complicados medos.
      Eu me chamava Andrew [chamava, pois apostara meu próprio nome a um amor ileal, irreal, cheio da mais complexa rusticidade, de ardência de uma paixão aviltante]. O nome dela era e é Katherine. A chuva não fazia parte de nosso cotidiano, como faz do meu agora. Quer dizer, é primavera! E chove. Dentro e fora de mim. 
     Como Katherine pôde fazer isso comigo? 
     Quer dizer, eu a amava. Aceitava todas as suas arbitrariedades, suas coisas mais excêntricas. Sabe, ela tinha pés grandes e olhos pequenos e era mandona e tinha voz fina e nariz um pouco torto e não gostava dos Beatles e tinha o cabelo espesso demais e riso infantil e... Eu não tenho mais defeitos para citar. Ah, sim, estou fazendo uma lista de prós e contras. E morro de medo de chegar aos prós, porque sei que remeterá a um passado sombrio onde tudo era iluminado, onde a felicidade dava-me bom dia e sorria para mim. Um passado tão cheio de terror, repleto das mais belas esperanças de um mundo melhor , de uma vida plena, de brilho nos olhares. Não haveria guerra se, em vez da cor da pele, isso importasse mais. Não quero lembranças de uma vida repleta de fulgor, onde o esplendor do sol podia ser notado todos os dias. Porque a chuva não fazia parte do nosso cotidiano. E agora faz. 
     Do meu. 
     Chove por dentro e por fora.
     Meu nome agora é Arthur.
     E o dela ainda é Katherine.
     Eu continuo chorando, permaneço sofrendo, transpasso o tempo doendo. E ela sorrindo, amando, vivendo para outro alguém. Quer dizer, eu a amava. Conseguia enxergar todos as suas qualidades. Até as que ela mesma não percebia. Linda e inteligente e com um sorriso lindo e uma personalidade forte e  sobrancelhas arqueadas e gentil e com uma boca carnuda e cuidadosa e mãos bonitas e responsável e gostava de mim e dizia que eu era fofo e chamava-me de bobo[ do jeito mais meigo possível] e gostava de ler e gostava de tudo que eu gostava[menos Beatles] e era feliz[ e fazê-la feliz deixava-me feliz] e era doce e gostava e respeitava meus amigos e falava 3 línguas e tinha adoração à dança[ me ensinara, porque na verdade eu não sabia dançar, e afirmava que não gostava] e era compreensiva e amava os animais e era persuasiva e todos os adultos adoravam dela[ inclusive meus pais] e... 
    Cansei. Eram infinitos. Ela era perfeitamente imperfeita. Ela tinha de ser minha. Cara, até o formato de sua mão era perfeito para o encaixe com o meu. Nós tínhamos de estar juntos. Éramos completos juntos. Andrew e Katherine , juntos contra o mundo. Juntos, juntos, juntos.
    Não é real. Meu nome ainda é o mesmo, eu ainda amo Katherine e ela ainda me ama. Não está chovendo lá fora e nem dentro de mim e eu estou sonhando, e vou acordar, e lá fora estará ensolarado, e Katherine estará esperando-me na porta da escola. 
   Ela me ama, eu a amo e não está chovendo lá fora, nem dentro de mim.
   Não é real.
   Não PODE ser real.
   Mas é.
   Meu nome? Agora é Arthur.
   E o dela, ainda é Katherine.

(meu)A menina triste


 A menina pensava. Talvez por obra do destino, ou por pura ironia, o cachorro a consolava. Um simples alento,  um modesto, mas sincero,carinho oriundo da raça [talvez a mais pura] a qual ela sempre desprezara. 
 Ela pensava. Pensava nas horas passadas, nos momentos em que sua paupérrima emoção vital mudara completamente. 
O clima era tempestuoso. Lá fora, nas pradarias não mais verdejantes, onde não mais se podia ouvir o canto dos pássaros, defronte sua remota casa, a garotinha se encontrava sentada. 
Não, ela não importava-se com a chuva torrencial que espalhava seus cabelos pelos ombros, não importava-se com as gotas, oriundas do mais sombrio céu, que insistiam em cair em seus olhos entorpecidos pela dor.  Não importava-se mais com nada.
 Então ela pensava. Nem quando caíra de sua bicicleta do barranco, nem quando tivera catapora, nada doera tanto quanto aquilo. Ver aquilo, sentir aquilo, ser aquilo. Doía como uma estaca em seu coração doente. Não! Doía como brasa quente sobre sua alva pele. Não! Era mais do que isso. 
Era dilacerante, arrasador. Como um furacão em um pequeno vilarejo, onde poder construir uma pequena casa de palha era sinônimo de riqueza. Destruindo tudo, destruindo até a esperança. Com a última que morre morta, não havia mais razão.  Era tudo caos, calmaria, tristeza e alegria. Tudo virava ambíguo, bipolar. Uma pequena cidade, destruída dentro de uma pequena pessoa.
 E o cachorro a consolava. Passava a cabeça por seus ombros, seus braços, encostando muitas vezes o gélido focinho na pele gelada da menina triste. Seus pelos, já encharcados por conta das lágrimas do céu, roçavam no pescoço da garotinha, em sua bochecha. 
A moçinha, passava a mão pela pelagem. E pensava. Que cachorrinho mais esperto! Sentira sua dor de longe. Logo aquele cão, no qual ela passara tantas vezes por , e nunca prestava a devida ajuda. Apenas jogava-lhe as migalhas quase inexistentes de seu pão, sem respirar, passando depressa. Eram seres inferiores! Tão pequenos, tão submissos. Como as mulheres de Atenas do século V a.C. Faziam tudo por um pouco de carinho, por um pouco de vida.
 Agora sim ela percebia. Aquele cachorro, assim como as mulheres de Atenas, não tinham escolha. Mas tinham sentimentos. Tinham determinação. 
E era apenas isso que importava. 
Levantou-se e pôs-se a andar. O cão a seguia. Agora, a dor era quase inexistente, apesar de ainda inevitável. 
Mas o cão a seguia, e era isso que importava.

sábado, 9 de março de 2013

(meu)Tanto tempo preso



Os pedaços quebrados
Espalhados
Atropelados
Um chão de mentiras
Uma base de verdades
E você vai querer parar o tempo
Mas o tempo não para
E então você vai querer mudar o passado
Mas o passado não se muda
E então gritos se espalharão pela cidade
Enquanto os segundos transcorrerão
Despercebidos como o vento
E você vai querer dizer coisas
Ou tirar o que já foi dito
E então você tentará arrancar um pedaço de você
Sem perceber que boa parte de você já se foi

E tentará arrancar os cabelos brancos
Sentindo a agonia de que o tempo é impiedoso
E tentará esquecer o que já foi
E o que será
Sem perceber que tudo é inevitável
Sem perceber que a vida passou
E que você passou tanto tempo preso
Que mal conseguiu ver um raio de sol
Tanto tempo preso
Que já nem mais sentia as correntes
Nem mais sentia a dor
Tanto tempo preso
Que não conseguia despedir-se das pedras
Que residiam em seu coração

Tanto tempo preso
Que deixou tudo passar
Apenas com a esperança
Que no final foi o que matou-lhe tão suavemente
[Você nem percebeu]
Tanto tempo preso
Que nem percebeu o fim
[Tanto tempo preso]
Não percebeu o pôr-do-sol
Que residia em você
Mas se apagou
[Simplesmente não percebeu]  

(meu)O tempo passa



As palavras nunca saem
Presas em uma garrafa
E o sentimento se perde
E os segundos passam
Junto com cada segunda-feira

E as coisas não ditas
Sussurradas pelos sorrisos
Expressas pelos gestos
Berradas pelos olhos
[Pena que o ser não saiba interpretar]
E os minutos passam
Junto com cada terça-feira

E os laços quebrados
Taças estilhaçadas
[Há cacos por toda parte]
Mentiras descoladas
De verdades insólitas
Insólidas
E as horas passam
Junto com cada quarta-feira

E cada lágrima derramada
Pernas de vidro
Cofres frágeis
[Um coração batendo cada vez mais fraco]
Amor de mãe
Amizade
[Existe algo realmente finito?]
Dor
E os dias passam
Junto com cada quinta-feira

E cada sorriso
Se perdendo em uma lua
Lembranças
Esquecimentos
Mais sorrisos
[Existe algo mais reconfortante?]
Memórias
E os meses passam
Junto com cada sexta-feira

E os rasgos
Costurando
Tecendo
Amanhecendo
Em um crepúsculo
Princesas
Rebeldes
A única flor de um vasto deserto
Já é quase meio-dia
E os anos passam
Junto com cada sábado

E as mãos dadas
A alegria de um olhar
Uma rosa desabrochada
Murcha
Nova
Linda
Frágil e forte
Sã e salva
Já é quase meia-noite
E o tempo passou
Bem-vindo ao domingo

Acabaram as palavras (Princesas, borboletas e maçãs)

É só o que tenho a dizer,
acabaram as palavras,
que eram todas pra você,
não há flores em sua calçada,
nem as noites em claro,
com o pensamento a se perder.
Parece não ter sido suficiente,
tudo que poderíamos viver,
não serei eu ao abraçar você,
quando o frio chegar.
E isso dói, como se toda dor sentisse dor,
por mais uma história sem nós,
é que finais felizes não correspondem a um talvez.
São minhas últimas palavras,
um milhão de motivos pra esquecer,
e um que sufoca meu peito,
me fazendo lembrar você,
mas é só até aqui que pude chegar,
um amor não correspondido corre para o mar,
e fica parado por não saber nadar.
Acho que estou triste,
mas às vezes acho que não,
se ao menos foi real pra mim,
não se perde nada ao tentar, afinal já nascemos perdendo um segundo por vez.
O silêncio é pior que a decisão,
faz doer mais do que imaginam,
os que um dia ouviram um não,
mas não precisamos disso,
é só minha escassez,
uma pérola não encontrada,
só mais um deixando pegadas solitárias.
E de mim o que sobrou?
O recomeço do que se acabou,
de um milhão de sonhos,
o último suspiro antes de esquecer o que poderia ter sido.
Sim, dói mais por ter sido verdadeiro,
do que por ter acabado o que nunca de vera tenha existido,
mas de volta ao castelo vazio,
é só mais um príncipe sozinho,
procurando a princesa,
num campo de borboletas,
que não consegue subir no topo das árvores mais altas,
e pegar as mais belas maças,
mas fica esperando com olhos fixos,
porque um dia alguém que não dará valor,
ao seu sabor jogará ela no chão
e eu estarei aqui pronto para não deixa-la se machucar.
http://palavrasmeumundo.blogspot.com.br/2009/11/acabaram-as-palavras-princesas.html