É uma tarde de primavera. Mas chove. Uma chuva torrencial, plena das mais simples dores, dos mais simples alento. Uma garoa fina, pesada, pancadaria leve feita do mais puro aço, dos mais complicados medos.
Eu me chamava Andrew [chamava, pois apostara meu próprio nome a um amor ileal, irreal, cheio da mais complexa rusticidade, de ardência de uma paixão aviltante]. O nome dela era e é Katherine. A chuva não fazia parte de nosso cotidiano, como faz do meu agora. Quer dizer, é primavera! E chove. Dentro e fora de mim.
Como Katherine pôde fazer isso comigo?
Quer dizer, eu a amava. Aceitava todas as suas arbitrariedades, suas coisas mais excêntricas. Sabe, ela tinha pés grandes e olhos pequenos e era mandona e tinha voz fina e nariz um pouco torto e não gostava dos Beatles e tinha o cabelo espesso demais e riso infantil e... Eu não tenho mais defeitos para citar. Ah, sim, estou fazendo uma lista de prós e contras. E morro de medo de chegar aos prós, porque sei que remeterá a um passado sombrio onde tudo era iluminado, onde a felicidade dava-me bom dia e sorria para mim. Um passado tão cheio de terror, repleto das mais belas esperanças de um mundo melhor , de uma vida plena, de brilho nos olhares. Não haveria guerra se, em vez da cor da pele, isso importasse mais. Não quero lembranças de uma vida repleta de fulgor, onde o esplendor do sol podia ser notado todos os dias. Porque a chuva não fazia parte do nosso cotidiano. E agora faz.
Do meu.
Chove por dentro e por fora.
Meu nome agora é Arthur.
E o dela ainda é Katherine.
Eu continuo chorando, permaneço sofrendo, transpasso o tempo doendo. E ela sorrindo, amando, vivendo para outro alguém. Quer dizer, eu a amava. Conseguia enxergar todos as suas qualidades. Até as que ela mesma não percebia. Linda e inteligente e com um sorriso lindo e uma personalidade forte e sobrancelhas arqueadas e gentil e com uma boca carnuda e cuidadosa e mãos bonitas e responsável e gostava de mim e dizia que eu era fofo e chamava-me de bobo[ do jeito mais meigo possível] e gostava de ler e gostava de tudo que eu gostava[menos Beatles] e era feliz[ e fazê-la feliz deixava-me feliz] e era doce e gostava e respeitava meus amigos e falava 3 línguas e tinha adoração à dança[ me ensinara, porque na verdade eu não sabia dançar, e afirmava que não gostava] e era compreensiva e amava os animais e era persuasiva e todos os adultos adoravam dela[ inclusive meus pais] e...
Cansei. Eram infinitos. Ela era perfeitamente imperfeita. Ela tinha de ser minha. Cara, até o formato de sua mão era perfeito para o encaixe com o meu. Nós tínhamos de estar juntos. Éramos completos juntos. Andrew e Katherine , juntos contra o mundo. Juntos, juntos, juntos.
Não é real. Meu nome ainda é o mesmo, eu ainda amo Katherine e ela ainda me ama. Não está chovendo lá fora e nem dentro de mim e eu estou sonhando, e vou acordar, e lá fora estará ensolarado, e Katherine estará esperando-me na porta da escola.
Ela me ama, eu a amo e não está chovendo lá fora, nem dentro de mim.
Não é real.
Não PODE ser real.
Mas é.
Meu nome? Agora é Arthur.
E o dela, ainda é Katherine.


