A menina pensava. Talvez por obra do destino, ou por pura ironia, o cachorro a consolava. Um simples alento, um modesto, mas sincero,carinho oriundo da raça [talvez a mais pura] a qual ela sempre desprezara.
Ela pensava. Pensava nas horas passadas, nos momentos em que sua paupérrima emoção vital mudara completamente.
O clima era tempestuoso. Lá fora, nas pradarias não mais verdejantes, onde não mais se podia ouvir o canto dos pássaros, defronte sua remota casa, a garotinha se encontrava sentada.
Não, ela não importava-se com a chuva torrencial que espalhava seus cabelos pelos ombros, não importava-se com as gotas, oriundas do mais sombrio céu, que insistiam em cair em seus olhos entorpecidos pela dor. Não importava-se mais com nada.
Então ela pensava. Nem quando caíra de sua bicicleta do barranco, nem quando tivera catapora, nada doera tanto quanto aquilo. Ver aquilo, sentir aquilo, ser aquilo. Doía como uma estaca em seu coração doente. Não! Doía como brasa quente sobre sua alva pele. Não! Era mais do que isso.
Era dilacerante, arrasador. Como um furacão em um pequeno vilarejo, onde poder construir uma pequena casa de palha era sinônimo de riqueza. Destruindo tudo, destruindo até a esperança. Com a última que morre morta, não havia mais razão. Era tudo caos, calmaria, tristeza e alegria. Tudo virava ambíguo, bipolar. Uma pequena cidade, destruída dentro de uma pequena pessoa.
E o cachorro a consolava. Passava a cabeça por seus ombros, seus braços, encostando muitas vezes o gélido focinho na pele gelada da menina triste. Seus pelos, já encharcados por conta das lágrimas do céu, roçavam no pescoço da garotinha, em sua bochecha.
A moçinha, passava a mão pela pelagem. E pensava. Que cachorrinho mais esperto! Sentira sua dor de longe. Logo aquele cão, no qual ela passara tantas vezes por , e nunca prestava a devida ajuda. Apenas jogava-lhe as migalhas quase inexistentes de seu pão, sem respirar, passando depressa. Eram seres inferiores! Tão pequenos, tão submissos. Como as mulheres de Atenas do século V a.C. Faziam tudo por um pouco de carinho, por um pouco de vida.
Agora sim ela percebia. Aquele cachorro, assim como as mulheres de Atenas, não tinham escolha. Mas tinham sentimentos. Tinham determinação.
E era apenas isso que importava.
Levantou-se e pôs-se a andar. O cão a seguia. Agora, a dor era quase inexistente, apesar de ainda inevitável.
Mas o cão a seguia, e era isso que importava.
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